• Leandro Sosi

O inferno de ser um multipotencial

Atualizado: Fev 28

Conhece alguém que possui uma lista infindável de habilidades? Que demais, né? Pois saiba que ela pode estar sofrendo calada.


Desde criança, sempre fui elogiado por alguns talentos. Tinha uma certa aptidão para a matemática, aprendi a tocar violão aos 8 anos, gostava de divertir os amigos e a família fazendo imitações de dinossauro Veloceraptor, Bart Simpson e até caminhão de motor turbo. Amava ler. Devorava os gibis da Turma da Mônica no trajeto da banca de jornal até em casa e lia tudo de novo assim que descia do Chevette 79 marrom após meu pai manobrá-lo na garagem. Sempre me dei bem com a escrita, apesar de detestar criar redações na escola. Sempre soube cantar e perdi a conta de quantas vezes ouvi que devia investir nisso e ser um cantor. Quando tinha 14 anos, fui a um churrasco na casa de uma amiga e cheguei a autografar um guardanapo para um senhor desconhecido, que me viu tocando e cantando. Ele disse ter certeza de que eu ficaria famoso. Ok, ele estava bêbado, mas isso não vem ao caso.



Nasci em São José dos Campos nos anos 80, muito próximo ao Centro Técnico Aeroespacial (CTA) um conglomerado militar e tecnológico que sedia muitas instituições importantes, como o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Embraer, ITA (Instituto de Tecnologia Aeronáutica) - e me deliciava com o som imponente dos testes dos caças militares e aeronaves comerciais. Gostava tanto que chegava até a fazer sentido seguir a carreira de Engenheiro da Aeronáutica. Foi o que eu fiz. Só que não.


Quando chegou a época do vestibular, nos meus 17 anos, senti que havia algo errado. Apesar de amar aviões até hoje, não era bem isso o que eu queria. Eu gostava de aviões como quem gosta de chocolate. E eu não queria exatamente fazer parte de uma linha de produção de chocolates, sabe?


No entanto, devo à essa fase o nascimento de um conflito infernal que perdurou por 20 anos. Naquela época ainda era muito comum bombardear crianças com uma pergunta que me causa calafrios até hoje:

" - O que você quer ser quando crescer?"

Uma pergunta aparentemente inocente, porém bastante perniciosa. Fazemos este tipo de pergunta às crianças na expectativa de que elas já tenham adquirido um nível de autoconhecimento que a maioria das pessoas adultas sequer sonha atingir. E o que é pior: houve uma época (que eu ainda peguei) em que se ela não respondesse que gostaria de ser engenheira, médico ou advogado, o adulto punha um sorriso de canto de boca e visivelmente interpretava a resposta como brincadeira.


Nós somos educados, desde cedo, a escolher. A escola, antigamente, dificilmente respeitava a individualidade e personalidade de cada um, colocando-os numa espécie de forma e induzindo todos a acreditarem que só existe uma fórmula de sucesso possível na vida: escolher UMA coisa, fazer UMA faculdade e se especializar o mais rápido possível. De preferência trabalhando naquilo que será sua profissão pelo resto da vida. Acredito que ainda seja assim, mas pelo que tenho lido, parece que isso está mudando, com o surgimento de escolas de olho no futuro e mais progressistas.

Veja bem: não estou demonizando esta opção. Só estou querendo dizer que existem muitas e muitas maneiras de ser uma pessoa realizada profissionalmente. Especialistas, na verdade, são necessários. Mas e se isso não funcionar pra você? 


Como o conflito interno quase me levou a um burn out


Bom... acabei me formando em Comunicação, e mesmo assim ainda cheio de dúvidas. Atualmente, 90% da minha renda vem da locução comercial, mas também trabalho com criação de trilhas sonoras e sound design. No entanto, também tenho facilidade para escrever textos, criar e editar vídeos, tenho habilidade para cozinhar, gosto de comportamento - fui Instrutor do DeROSE Method por 3 anos - amo cachorros, tenho vários projetos em andamento com a minha golden retriever Julieta, gosto de viajar, amo arquitetura, engenharia, humor, minha paixão por aviões continua firme e forte, tenho habilidade para me comunicar etc.


Legal, né? Veja... depende do ponto de vista. Creio que à esta altura você deve estar imaginando como funciona a minha cabeça em uma sociedade que valoriza o especialista, e não o generalista. Saber fazer tantas coisas gera uma ansiedade absurda, pois é como se você tentasse juntar peças de um quebra-cabeça que mudam de formato todos os dias. No final de 2019, me vi na seguinte situação: além de ser locutor e de cuidar de todo o meu próprio marketing, redes sociais e financeiro, eu vinha trabalhando como Diretor de Comunicação do Clube da Voz (Associação de locutores mais relevante do Brasil), aprendendo a trabalhar em equipe, enfrentando um tumor no focinho da Julieta e gastando uma pequena fortuna com veterinários especialistas, sendo assombrado por uma tendência genética a cálculo renal, com a agenda cheia de compromissos sociais e com pouco tempo para introspecção e lazer... e foi assim, que, perto do meu aniversário de 39 anos, meu corpo não aguentou: tive a pior intoxicação alimentar da minha vida e quase fui parar no hospital. Para uma pessoa ativa como eu, que sempre gostou de esportes e de cultivar estímulos criativos, tomar soro em uma maca por causa de baixa imunidade gerada por stress era algo até então inimaginável. Minha cabeça nunca esteve tão confusa. Senti que estava a ponto de enlouquecer. Foi quando lembrei que existia esse tal de Burn Out e tratei de pesquisar. Para minha surpresa, eu estava com TODOS os sintomas. Tive certeza que estava prestes a ter um.


O ponto de virada - descobri o termo "Multipotencial"


Em uma de minhas várias noites de mente inquieta rolando minha timeline do Facebook descompromissadamente, me deparei com este TED de uma jovem brilhante chamada Emily Wapnick:


Eu sei, ele tem 12 minutos, mas tire um tempinho para assistir mais tarde, pois vale a pena.

Chorei copiosamente de alívio ao assistir isso, porque percebi que muitas pessoas sentem a mesma angústia que eu. Não porque não se interessam por nada, mas sim porque se interessam por quase tudo e passaram boa parte da vida se reprimindo numa luta infindável e dolorosa consigo mesmas, se sentindo na obrigação de se tornarem especialistas e anularem muitas de suas habilidades, com a desculpa de descobrirem de maneira romântica seu propósito, sua vocação. Não, eu não estava sozinho. Não, eu não sou um perdido na vida. Ufa!


A Voz da Minha Consciência e Julieta Pelo Mundo


Entre outras coisas, Wapnick fala sobre os superpoderes do profissional multipotencial. O primeiro deles é o poder de síntese. Algumas semanas antes de assistir a este vídeo, cheguei a criar um projeto que aparentemente sintetizava tudo o que faço, chamado "A Voz da Minha Consciência". Poxa, é lógico! Como não pensei nisso antes? Eu poderia criar vídeos onde poderei fazer meu próprio texto, locução, trilha sonora e ainda falando sobre algo que adoro: comportamento. E nasceu o piloto "Quem Disse?":


Um outro projeto muito parecido com esse, mas destinado ao público amante de cães, é o "Julieta Pelo Mundo". Este parece estar dando um pouco mais certo, pois já existe há mais tempo também... para minha total surpresa, um dos vídeos já passou de 500mil visualizações e 15mil compartilhamentos no Facebook:



Considero estes dois projetos uma espécie de novo começo. Não faço a menor ideia se colherei frutos e lógico, não pretendo deixar de fazer locução comercial, mas sigo em frente na montagem do meu quebra-cabeças ainda sem solução e decidi que não vou - e nem devo - tentar fazer isso sozinho. Por isso, se você se identificou com este texto e com pessoas multipotenciais, saiba que você também não precisa lutar sozinho contra a cultura do especialista. Eu estou buscando, assim como você, viver uma vida mais autêntica e feliz.

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